quinta-feira, 20 de junho de 2013

Vem pra rua, vem!

17-06-2013: 100 mil pessoas na Av. Rio Branco (RJ)

O nosso sentimento é de total impotência. Nós estamos espremidos em um canto mudo dessa democracia, pois as urnas não traduzem os nossos direitos. Os políticos eleitos não nos representam. Algo está errado, muito errado! O povo brasileiro, através da maioria dos votos, elege os políticos para que eles defendam os interesses da sociedade. No entanto, alguma coisa mágica (na verdade, trágica) acontece ao fim de cada eleição. Os representantes ignoram tudo aquilo que foi dito em suas campanhas eleitorais e findam por atender quase que somente aos interesses daqueles que financiam suas propagandas, em um ato individualista de manutenção do poder. A população, por sua vez, cobra pouco de seus candidatos eleitos por não possuir mecanismos de fiscalização que permitam o acesso à informação com qualidade. Meus Deus! É como se estivéssemos sozinhos e de mãos completamente atadas contra um monstro que nós mesmos criamos. Somos esquecidos por aqueles que escolhemos. Aumenta, então, o sentimento de impotência em um ciclo vicioso praticamente infindável.

Cada um de nós é surrado em silêncio todos os dias. Apanhamos calados feito cães adormecidos. Porém, há limites. Agora isso ficou claro. A gota d'água foi o aumento do preço do transporte público oferecido, que é de péssima qualidade e atende mal a população como um todo. Os 20 centavos (40, ida e volta) diários no bolso podem parecer pouco, mas quando multiplicados por cada cidadão simbolizam muito bem a indignação que estamos sentindo. E foi nessa movimentação que vimos nossa força. Sozinhos não somos ouvidos, mas juntos temos voz. Juntos podemos gritar bem alto e mostrar que acordamos! A nossa força vem da coletividade, vem do encontro dos nossos interesses manifestados em conjunto.

Não são só 20 centavos, seus filhos da puta. É o descaso com o dinheiro do cidadão, a incapacidade de administração pública, o equívoco na priorização dos gastos públicos, o desrespeito aos professores, aos médicos, aos policiais, aos bombeiros, à toda população. É a falta de canal de comunicação, a ausência de prestação de contas e transparência, a prepotência de acharem que não é preciso dar retorno ao povo. É a corrupção desmedida, encorajada pela impunidade que lhes é garantida sei lá porque. É a dança das cadeiras que existe de 4 em 4 anos, na qual bailam no poder quase sempre os mesmos "representantes", sem que praticamente nada se modifique em nosso país. São os salários exorbitantes para cargos públicos em um país onde a distribuição de renda é uma das mais discrepantes do mundo. São as mentiras e promessas ditas diariamente como se nós fossemos babacas e acreditássemos. São os tapas na cara que recebemos encolhidos em nossa impotência, sem entender o porquê.

Crescemos ouvindo que somos uma geração pouco envolvida politicamente. Uma geração digital de câmeras e celulares, que valoriza mais as redes sociais do que o mundo real. Damos mais valor aos vídeo-games do que à literatura. Somos mais razão do que emoção. Mas a ficha caiu! Compreendemos o nosso papel como cidadão civil e usamos nossas ferramentas eletrônicas. De uma hora pra outra, éramos 100 mil pessoas atravessando a Av. Rio Branco (RJ) numa caminhada pacífica maravilhosa, que ficará registrada na História. De repente, em uma semana, éramos mais de 1 milhão de brasileiros somados nas ruas para protestar em todo o Brasil a fora. Nos rebelamos por direitos, pelo cumprimento dos deveres dos nossos representantes. Queremos mostrar para o mundo inteiro a realidade do Brasil, como é o país do futebol nos anos que não tem Copa. Estamos conseguindo! As manifestações cresceram  tão rapidamente que nós mesmos fomos pegos de surpresa. Acordamos de um sono profundo e ainda estamos entendendo o que está acontecendo. Não se sabe ainda de maneira clara e objetiva quais são as reivindicações do povo. O que queremos? Quando queremos? Quais são as lideranças? Impeachment de alguém? Sem partidos políticos? Com bandeiras? Entre outras, essas são perguntas recorrentes, que ainda estão abertas, mas não precisam necessariamente ser respondidas nesse instante.

O que ficou à mostra foi a necessidade de mudança. Surgiu uma sede incontrolável de ver as coisas funcionando, de ver o país evoluindo, de ver as regras se adaptando à nossa realidade. Vivemos em um regime democrático construído no final da ditadura militar. Um modelo político que foi conquistado pelos nossos pais, através de muita luta e porradaria e que, naquele momento, era o melhor dentro das possibilidades existentes. Diversas pessoas foram torturadas e inúmeras concessões foram feitas. Só que o tempo passou e agora é a nossa vez! Está bom assim? Certamente, não. Vamos mudar? Com certeza!

Pra isso precisamos de mais gente nas ruas! A grande importância desse protesto é a demonstração da força do grupo em prol de uma insatisfação coletiva. Os governantes estão voltando atrás em suas decisões e acabaram reduzindo os valores das tarifas de ônibus. É o primeiro passo. Ou eles querem se manter no poder ou começaram a entender seus papéis como representantes. Meu palpite é para a primeira hipótese, mas não interessa. O importante é que a pressão popular pacífica surtiu efeito e catalizou o poder do povo. As ruas continuarão cheias, pois nós vimos o potencial do grupo unido para garantir nossos direitos.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A insustentável leveza do ser




Nos 10 minutos iniciais do filme, vê-se Tomás como um homem que pauta sua vida pela libertinagem sexual. Com as facilidades de um jovem atraente, o médico consegue levar para cama todas as mulheres com quem se esbarra. No entanto, ele mantém uma relação que beira o compromisso - devido a frequência dos encontros - com uma artista plástica chamada Sabina, que também possui a mente livre de apegos sentimentais. Ainda no princípio da história, Tomás conhece uma menina que muda a forma com que ele toca a vida. Tereza conhece o neurocirurgião ao acaso e, interessada no homem, dirige-se à Praga para encontrá-lo. Os dois casam-se e o roteiro se desenrola... Sem tirar o mérito da direção de Philip Kaufman e da atuação de Daniel Day-Lewis, as atrizes Juliette Binoche e, principalmente, Lena Olin roubam a cena com encanto e sensualidade.

O ponto alto de A insustentável leveza do ser - baseado em livro homônimo do tcheco Milan Kundera - é mostrar a forma suave com que o médico leva sua vida e seus relacionamentos amorosos. Essa leveza é notada nos diálogos e no tratamento que tem com suas duas amantes no decorrer do enredo. Dividido entre amor e sexo, as conversas são muito bem compostas, conforme essa transcrita abaixo:

- Você está apenas procurando prazer? Ou toda mulher é uma terra nova cujos segredos você quer desvendar? Quer saber o que ela dirá quando fizer amor? Ou como ela sorriria? Ou o que sussurraria? Gemeria, gritaria?
- Talvez os menores e mais inimagináveis detalhes. Pequenas coisas fazem uma mulher totalmente deferente de qualquer outra.
- Qual é o meu detalhe, doutor?
- O seu chapéu, Sabina.

No desenrolar do romance, as paisagens da capital Tcheca embelezam o cenário, pois é durante a Primavera de Praga de 1968 que se passa o contexto histórico do filme. Nessa época, a União Soviética invade a cidade com seus tanques de guerra e força o exílio de diversas pessoas. Abaixo, uma analogia construída para comparar Tebas a Praga.

(...) Não inocentes, mas desavisados, talvez. Não importa se sabiam ou não. Estive pensando sobre Édipo. Quando Édipo percebeu que havia matado seu pai, sem saber. Foi sem saber, que matou seu pai... E estava dormindo com sua própria mãe... Por causa de seus crimes, pragas estavam devastando a sua cidade e ele não pôde suportar a visão do que havia feito. Ele arrancou os próprios olhos e deixou a cidade. Ele não se sentiu inocente, mas sentiu que deveria se punir. Já os nossos líderes, ao contrário de Édipo, sentiram que eram inocentes. E quando as atrocidades do período stalinista foram reveladas, eles disseram: "Nós não sabíamos! Nós não sabíamos o que acontecia. Nossa consciência está limpa". Mas a diferença importante é que eles continuam no poder.

LINK:
http://vagalumerosa.wordpress.com/2008/10/15/a-insustentavel-leveza-do-ser-the-unbearable-lightness-of-being-1988/

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Desafio no Bronx

Era década de 1960, o som em estilo Doo Wop perdia espaço para a batida dos Beatles. Entretanto, o Jazz e a Black Music ainda eram constantes nas ruas de Nova York. (Não preciso dizer que a trilha sonora do filme é fenomenal, né?) Os distritos dessa grande metrópole eram divididos em seus grupos sociais, culturais e raciais. No Bronx não era diferente: brancos e negros habitavam em vizinhanças próximas, como se estivessem a quilômetros de distância. O cenário do filme é um bairro de italianos, o Fordham, onde há um grupo de mafiosos que controlam as adjacências. Além disso, o pré-conceito racial é latente em seus moradores e isso é claramente notado quando um negro cruza as redondezas.
A narrativa é feita por Calogero (Francis Capra, aos 9, e Lillo Brancato, aos 17), um garoto que cresceu no bairro e testemunhou um assassinato cometido pelo chefe da máfia local, Sonny (Chazz Palminteri). No entanto, no momento de identificar o criminoso, o menino (aos 9 anos) mentiu para os policiais e não delatou o assassino. Com isso, Sonny se aproximou de Calogero - agora apelidado de "C" - e passou a lhe tratar como um filho, dando conselhos de pai e contribuições financeiras. Ao perceber essa aproximação entre os dois, Lorenzo (Robert De Niro), o pai do menino, tenta mostrá-lo que a realidade vivida pelos mafiosos não é correta.
Enquanto Sonny é um criminoso que considera os trabalhadores uns otários, Lorenzo é um digno motorista de ônibus que acorda cedo todos os dias para honrar seu emprego. Junto à questão racial, a discussão sobre escolhas - sejam certas na hora errada ou vice versa - ocupam o centro do filme. Na primeira parte, o filme é visto pelos olhos de uma criança de 9 anos, e depois, por um rapaz de 17 anos, que se apaixona por uma menina negra, Jane (Taral Hicks).

Desafio no Bronx, o primeiro filme dirigido por De Niro, é uma adaptação de um roteiro de Chazz Palminteri, que também faz uma atuação brilhante no longa. Segue, abaixo, um diálogo interessante entre Sonny e "C". Também selecionei dois vídeos, um mostrando o embate de valores entre Lorenzo e Sonny, e outro, o momento em que Calogero apaixona-se por Jane (com o som de I Only Have Eyes For You, no sax de Gerry Niewood).
- Qual é o problema?
- Louie Dumps me deve 20 pratas, já faz duas semanas. Toda vez que me vê, ele se esconde. Já estou puto. Devo dar uma surra nele?
- O que há contigo? Já te disse que nem sempre bater em alguém resolve. Em primeiro lugar, ele é seu amigo?
- Não, eu nem gosto dele.
- Você nem gosta dele? Aí está a resposta, vai custar-lhe 20 pratas pra livrar-se dele. Ele não vai chateá-lo mais, não pedirá mais dinheiro. Sairá da sua vida por 20 dólares. É barato, esqueça isso.
- Você está certo. Você está sempre certo!
- Se eu estivesse sempre certo, não teria passado 10 anos na prisão...
- O que fazia todos os dias?
- Só tem três coisas pra fazer: levantar peso, jogar cartas ou arrumar confusão.
- O que você fazia?
- Eu lia. Já ouviu falar em Maquiavel?
- Quem?
- Maquiavel, um escritor famoso de 500 anos atrás. Ele falava sobre disponibilidade.
- Disponibilidade?
- Exato. Ouça-me, eu posso morar onde eu quiser. Sabe por que moro nesse bairro? Disponibilidade. Quero estar perto de tudo. Estando aqui, posso ver os problemas imediatamente. Problemas são como câncer: se você não perceber logo, eles crescem e matam você. Precisam ser eliminados. Capiche? Vamos andando... Você está preocupado com Louie Dumps. Ninguém dá a mínima, ninguém dá a mínima. Preocupe-se com você, com sua família, com quem realmente importa.
- (...)
- Afinal, tudo é disponibilidade. As pessoas que me veem todos os dias, se estão ao meu lado, sentem-se seguras, porque sabem que estou por perto. Por estar por perto gostam de mim. Aqueles que preferem me atacar pensam duas vezes, porque sabem que estou por perto. Tem mais motivos para me temer.
- É melhor ser amado ou ser temido?
- Boa pergunta. As duas coisas são boas, mas é difícil. Se quer saber a minha escolha, eu prefiro ser temido. O medo dura mais que o amor. Amizades compradas não valem nada. Você nota isso: se eu conto uma piada todos riem. Eu sei que sou engraçado, mas não tanto. O medo faz com que sejam leais a mim. O segredo é não ser odiado. Por isso, eu os trato bem, mas não muito, ou não precisarão mais de mim. Dou só o necessário, assim, precisam de mim e não me odeiam. Lembre-se dessas palavras.

VÍDEOS:

"Seu pai que é durão"




"C" vendo Jane no ônibus




LINK:
http://vagalumerosa.wordpress.com/2010/09/30/desafio-no-bronx-a-bronx-tale-1993/

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Vincent


A Vinha Encarnada, de Vincent Van Gogh, foi o único quadro do artista a ser vendido enquanto ele estava vivo. A tela foi adquirida em 1890, ano de sua morte, pela pintora e curadora Anna Boch, por 400 Francos.



Cem anos depois, a tela Retrato do Dr. Gachet, também de Van Gogh, foi leiloada por US$ 82,5 milhões, sendo a obra de arte mais cara já vendida até aquela época.

Dá pra entender?